Expedição de 900 km pelo Rio Cuiabá revela desafios ambientais e sociais

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Diagnóstico apresentado na Assembleia Legislativa reúne dados da travessia entre o Rio Manso e o Pantanal e aponta problemas como poluição, falta de saneamento e impactos na pesca

Os resultados da 3ª Expedição Fluvial pelo Rio Cuiabá foram apresentados nesta terça-feira (17) durante coletiva na Assembleia Legislativa de Mato Grosso. O diagnóstico ambiental e social reúne dados coletados ao longo de aproximadamente 900 quilômetros de percurso, entre o Rio Manso e o Pantanal, durante travessia realizada entre os dias 9 e 13 de março.

A iniciativa foi requerida pelo deputado Wilson Santos e contou com apoio de diversas instituições. O levantamento aponta que, embora parte da mata ciliar ainda esteja preservada, foram identificados problemas relevantes, como descarte irregular de lixo nas margens do rio, lançamento de esgoto sem tratamento e impactos históricos provocados por empreendimentos hidrelétricos.

Segundo o parlamentar, o objetivo da expedição foi observar diretamente a situação do rio e ouvir as comunidades ao longo da bacia. Durante a travessia, a comitiva percorreu cerca de 920 quilômetros, passando por nove municípios e promovendo reuniões com ribeirinhos, pescadores e lideranças locais.

Entre os principais problemas relatados está a falta de saneamento básico, especialmente nas cidades de Cuiabá e Várzea Grande, onde ainda há despejo de esgoto sem tratamento no rio.

Outro ponto destacado no diagnóstico foi o grande volume de resíduos ao longo do percurso e a presença de milhares de tablados utilizados na pesca. Segundo Wilson Santos, muitas dessas estruturas utilizam ceva, prática que exige fiscalização mais rigorosa.

Durante a expedição, o grupo também passou por Rosário Oeste, Nobres, Acorizal, Chapada dos Guimarães, Santo Antônio de Leverger, Barão de Melgaço e Poconé, onde foram ouvidas comunidades ribeirinhas que relataram dificuldades econômicas, especialmente entre pescadores profissionais.

Entre as principais reclamações estão atrasos no pagamento do seguro-defeso e restrições impostas pela legislação estadual da pesca, além da insatisfação com a chamada Lei do Transporte Zero. As comunidades também manifestaram, de forma quase unânime, oposição à instalação de novas usinas hidrelétricas no Rio Cuiabá.

A promotora de Justiça Ana Luíza Ávila Peterlini destacou que os dados apresentados evidenciam não apenas questões ambientais, mas também problemas sociais nas comunidades da região. Segundo ela, em algumas localidades ainda há falta de acesso à água potável, regularização fundiária e serviços básicos como saúde e educação.

Estudos conduzidos pela Universidade Federal de Mato Grosso também integram o diagnóstico e fazem parte do Plano de Recursos Hídricos da bacia do Rio Cuiabá, elaborado desde 2022 com apoio do Ministério Público, da Assembleia Legislativa e do Comitê de Bacia.

O engenheiro hidráulico e professor da UFMT, Rafael Petrollo de Paes, explicou que o estudo analisa aspectos ambientais, sociais e econômicos da região e projeta cenários para os próximos 20 anos. Entre os pontos de atenção está a retenção de sedimentos pela barragem de Manso, que pode afetar áreas de inundação no Pantanal e alterar o equilíbrio do ecossistema.

O material apresentado reúne registros fotográficos, vídeos e dados técnicos coletados durante a expedição e deverá orientar futuras políticas públicas e ações de gestão da bacia hidrográfica nos próximos anos. Também participaram da iniciativa representantes da Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso, do Batalhão da Polícia Militar de Proteção Ambiental, da Associação do Segmento da Pesca de Mato Grosso e do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Cuiabá.

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